O debate sobre identidade de gênero frequentemente se perde em labirintos biológicos e técnicos, esquecendo-se do que deveria ser o alicerce de qualquer sociedade: a compaixão. Recentemente, vimos o caso da deputada Erika Hilton ser alvo de questionamentos sobre sua capacidade de representar as mulheres. Como mulher, sinto que precisamos dar um passo atrás e olhar para a essência do que nos torna humanos.
O Espelho que não Reflete
Entender a própria natureza, para muitos, não é um caminho linear. É uma jornada silenciosa que acontece entre o que se vê no espelho e o que pulsa debaixo da pele. Para uma pessoa travesti, crescer tentando entender sua identidade é como tentar ler um livro em uma língua que ninguém mais fala.
Muitas vezes, a sociedade impõe roteiros rígidos. No meio de tantas “certezas alheias”, a identidade travesti floresce não como um erro de percurso, mas como o próprio percurso — um ato de coragem que se renova a cada manhã para redesenhar as margens de um rio que muitos insistem em dizer que deveria ser seco.
A Falácia da Representatividade Exclusiva
O questionamento que ecoa hoje nos tribunais e nas redes sociais é: “Como pode Erika Hilton representar as mulheres, se não nasceu uma?”. Esta pergunta, embora pareça lógica para alguns, ignora a gramática mais básica da alma humana.
A identidade não deveria ser uma barreira para a empatia. Eu falo aqui como mulher cisgênero e afirmo com convicção: eu não precisei passar pela transição de gênero para sentir a dor de uma travesti que é empurrada para as margens. Minha humanidade me permite atravessar essa ponte sem precisar do “passaporte” da vivência idêntica.
Por que, então, exigimos dela o que não exigimos de nós mesmos?
O Elo da Vulnerabilidade
O que une as mulheres e as pessoas travestis não é um cromossomo, mas o fato de que ambas conhecem a luta por espaço em um mundo que tenta diminuir o feminino. A violência e o silenciamento que atingem Erika Hilton nascem da mesma raiz que tenta silenciar todas as mulheres.
Julgar alguém por “não ser mulher o suficiente” para representar uma causa é esquecer que, antes de sermos gêneros, somos seres humanos. A capacidade de defender uma pauta, de acolher uma dor e de legislar por direitos não reside na genitália ou no registro civil; reside na consciência.
“A compaixão não exige identidade, exige presença. Se somos capazes de chorar as dores uns dos outros, somos capazes de representar as lutas uns dos outros.”
Veredito: O Direito de Ser
Negar a Erika Hilton o direito de representar é negar a própria evolução da nossa empatia. Se o ódio e o preconceito são universais, por que o apoio e a representatividade precisam ser segregados?
Ela não precisa ser “biologicamente mulher” para carregar no peito o respeito e a defesa das mulheres. Ela só precisa ser o que já é: um ser humano corajoso que, ao lutar por si mesma, acaba lutando por todas nós que também buscamos o direito de existir sem medo.
Veronica Araujo
Buscadora incansável da verdade e do autoconhecimento, Veronica dedica sua vida a desvendar as camadas da existência humana. Há mais de quatro anos, mergulhou profundamente nas trilhas das medicinas da floresta, encontrando na Ayahuasca um portal para a cura e a expansão da consciência. Sua jornada é movida pela vivência prática e pela coragem de olhar para dentro, unindo a sabedoria ancestral da terra aos mistérios do espírito. No RITAM, ela compartilha suas descobertas sobre o desenvolvimento humano, acreditando que a verdadeira ordem cósmica começa no despertar de cada indivíduo.



